Há quem considere que a partir dos anos 30 do século passado a humanidade entra na ‘era do olhar’ quando ocorre a primeira transmissão de imagens na Alemanha e na Inglaterra através da televisão, expandindo e afetando todas as formas do que se pode ver. Desde sempre, porém, o olhar ocupa um lugar de grande importância na nossa maneira de estar no mundo.
Os olhares se deslocam e se transformam de acordo com sua posição no tempo e no espaço, já que somos resultados de uma construção histórica, somos produzidos por relações de poder, um poder que transita por nós, que nos assujeita.
Em companhia de Félix Guattari, compreendo que não há uma suposta natureza humana e sim uma subjetivação ou produção de subjetividade de natureza industrial, maquínica, isto é, essencialmente fabricada e modelada. Além disso, também não é o caso de se considerar a subjetividade determinada por uma superestrutura, uma ideologia, já que são as grandes máquinas de controle social e as instâncias psíquicas que definem a maneira de perceber o mundo.
Michel Foucault já havia nos mostrado que a modernidade e os diversos espaços de confinamento como os presídios, escolas, fábricas e as cidades que os contêm inauguram uma inversão de foco do olhar; antes voltado para o soberano, agora vigilante sobre o indivíduo comum. Portanto, a vigilância (e a autovigilância), a norma e os exames são dispositivos que se constituem em campos de visibilidade e procedimentos de observação para a compreensão das relações de poder/saber que se formam e que produzem os sujeitos.
O foco dos olhares da biopolítica, ainda no entendimento de Foucault, não era mais o individuo no nível do detalhe, como na tecnologia disciplinar, mas, pelo contrário, os mecanismos globais, de equilíbrio e de regularidade, voltados para a população de um modo geral. Neste caso tornou-se necessário assegurar uma regulamentação.
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| Olhares - autora: Cátia Rodrigues |
O olhar não é mais central, agora ele está disperso, espalhado e presente em diversos setores. É um olhar cada vez mais sutil e menos evidente. A tecnologia digital possibilita que se veja através das câmeras espalhadas pelas cidades e pelas praias; ou no interior de shopping centers, estações de metrô, entradas de edifício, elevadores, lojas, escritórios, consultórios e até escolas; os satélites são capazes de localizar um animal no campo; há controle até através da Internet pelo IP do computador de uso pessoal; pelas estradas e ruas urbanas estão espalhados radares de velocidade ou em sinais de trânsito.
As tecnologias da informação e comunicação engendram novas relações entre subjetividade e visibilidade, ocorre uma transformação na maneira como os indivíduos constituem a si mesmos, especialmente a partir da relação com o outro, com o olhar do outro, cresce o desejo de ser visto, de se expor diante do olhar do outro.
Com o aparecimento do ciberespaço, surgem também novos dispositivos de vigilância digital para monitoramento de ações, informações e comunicações dos indivíduos, com a função estratégica de montagem de bancos de dados e a elaboração de perfis computacionais, constituindo-se em novas formações de poder e saber. Trata-se, agora, de uma vigilância que se exerce menos com o olhar do que com sistemas de coleta, registro e classificação da informação; menos sobre corpos do que sobre dados e rastros deixados no ciberespaço.
Félix Guattari nos diz que existem três vozes fundamentais que estão na base dos processos de subjetivação das sociedades contemporâneas ocidentais: as vozes do poder, as vozes do saber e as vozes de auto-referência.
Em que pese os efeitos inibidores de resistências da disciplina e do controle, a terceira voz, a da auto-referência, é a voz que procura linhas de fuga, que se contrapõe ao olhar da disciplina e controle, voz da esperança, que resiste e busca alterações na correlação de forças no funcionamento do modo de produção capitalista através de pressões de natureza política, econômica e sociocultural.

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