Século XXII, o ano é 2199. O que se vê é um cenário de desolação, degradação e destruição provocado por uma catástrofe nuclear causada pela guerra entre os seres humanos e as máquinas. Aqueles tentam se livrar do domínio destas, mas não conseguem, uma vez que as máquinas vencem a guerra e acabam subjugando os humanos.
Após a catástrofe climática não é mais possível a obtenção de energia solar, as máquinas, então, utilizam a energia biolétrica humana, através de tubos ligados aos corpos dos homens aprisionados em casulos. Eles ficam adormecidos do nascimento até à morte e sempre que é preciso novos homens são gerados artificialmente; quando morrem, seus corpos são reprocessados para se tornarem alimento intravenal dos ainda vivos.
Deste modo, os seres humanos vivem adormecidos, enquanto suas mentes sonham que vivem, nascem, morrem, convivem em família, comem, dançam, trabalham, estudam etc. Sensações e impressões de uma realidade simulada através de um programa de computador. O simulacro é a Matrix e o “sonho” se desenrola no final do século XX em alguma grande metrópole do planeta. O mundo virtual da Matrix em quase tudo se assemelha ao mundo em que vivemos na atualidade.
A história ainda não acabou e como em qualquer totalidade, ela apresenta suas contradições e fissuras. Na ficção de Matrix, o filme (dirigido pelos irmãos Andy e Larry Wachowski), há um grupo de homens livres que conhecem e sabem lidar com a tecnologia da máquina, conhecem toda a verdade e se rebelam contra ela.
Num dado momento do filme o líder dos rebeldes, Morpheus, fala ao hacker Neo: “– A Matrix é um mundo de sonho cujo propósito é nos controlar (...) Cada visão e cada cheiro na Matrix são produto do trabalho humano”.
Nos Manuscritos Econômico-Filosóficos ou Manuscritos de 1844, Karl Marx diz que “o produto do trabalho humano é trabalho incorporado em um objeto e convertido em coisa física; esse produto é uma objetificação do trabalho". A execução do trabalho é simultaneamente sua objetificação, aparecendo na esfera da Economia Política como uma perversão do trabalhador, como uma perda e uma servidão ante o objeto.
Mais adiante, Marx afirma que “A alienação do trabalhador em seu produto não significa apenas que o trabalho dele se converte em objeto, assumindo uma existência externa". Ele observa que a mercadoria adquire todos os aspectos que atribuímos aos homens e aos vivos, ganhando deliberação própria, vontade, capacidade de mando, capacidade de organizar o mundo, capacidade que normalmente atribuímos à razão, seja humana ou divina, conforme a crença de cada um. O objeto vira sujeito e vice-versa. Agora o homem é manipulado pela mercadoria.
Como uma obra de arte nos permite a liberdade de ver, proporcionando um vasto campo de interpretações e leituras, em Matrix podemos compreender que a humanização da máquina leva à desumanização do homem, à sua coisificação e reificação levados ao paroxismo.
No “mundo de sonho” dos humanos da Matrix, assim como no mundo real em que vivemos, muitas vezes acabamos obscurecendo o relacionamento que a força de trabalho global partilha como classe.
Momentos antes de delatar seus companheiros de resistência, Cypher fala ao agente Smith: “– Eu sei que este bife não existe. Eu sei que, quando coloco a boca, a Matrix diz ao meu cérebro que o bife é suculento e delicioso. Depois de nove anos, sabe o que percebi? A ignorância é a felicidade”.
Muitos de nós ignoramos que as mercadorias que compramos são produzidas por pessoas como nós. Os sapatos que usamos, as roupas que vestimos ou a comida que nos alimenta foram comprados com o dinheiro que ganhamos e feitos para trabalhadores por trabalhadores. Ouvimos histórias sobre trabalhadores sofrendo nas linhas de produção asiáticas, mas mesmo assim compramos nossas marcas favoritas de tênis. Dirigimos automóveis, a caminho de nosso trabalho, que foram produzidos por trabalhadores, e não reconhecemos o sistema operante no qual estamos envolvidos.
Mesmo que Matrix, o filme, nos sirva de metáfora, ele não pretende convencer os espectadores a despertar e lutar contra os poderes exploradores, uma vez que não nos mostra o que a raça humana está perdendo enquanto fica ligada na Matrix. Os humanos e máquinas vivem uma simbiose, e o mundo de sonho para onde Cypher quer voltar não parece tão ruim ao espectador. O mundo de sonhos mostrado no filme, a Matrix, é totalmente em cores. Se Matrix realmente tinha o objetivo de fazer uma declaração “marxista” de algo do qual devemos despertar, o mundo de sonho da Matrix teria sido filmado em preto e branco.